A Manhã – Diário de Genevieve

Eu percebi faz pouco tempo que gosto da manhã. Não da manhã em si, mas aquele comecinho da manhã, quando tudo ainda está um pouco escuro. Quando tudo ainda dorme. O mundo parece estar parado por alguns minutos, tudo está segurando a respiração apenas na espera de ver o esplendor do sol se mostrar no horizonte.

Gosto de ver o nascer do sol. Ver que antes mesmo de se mostrar ele ilumina, sua luz o antecede e o anuncia. E aos poucos ele aparece de forma tímida, mas ele não é tímido, nem discreto, apenas não sente necessidade de se esforçar muito porque sabe que chama por todos os olhares sem esforço algum.

Amo ver a terra começar a se clarear aos poucos, e quando você percebe está tudo tão claro, tudo tão vivo, tudo acordado e funcionando. Tudo parece acontecer tão lentamente e tão rápido. É uma percepção confusa. Talvez seja a culpa da sutileza do sol, seu brilho vai enchendo uma parte do mundo e quando você se permite perder-se um pouco nele percebe que tudo já está tomado em seu brilho.

Ainda não descobri melhor sensação que o friozinho acompanhado do cantar dos pássaros que apenas uma manhã proporciona. É como se um quadro estivesse sendo pintado e modificado a cada segundo e ao fundo uma sinfonia de pássaros acompanha essa grande obra de arte sendo feita e as duas artes se fundem virando uma só.

Gosto da manhã quando quase ninguém acordou ainda, gosto de pensar por alguns instantes que estou sozinha no mundo. Gosto do gostinho da solidão. De pensar que apenas aquilo basta. De achar, pelo menos por alguns minutos, que tudo está bem, que tudo é belo, e que tudo é.

A manhã proporciona uma paz inexplicável. Aquele tipo de paz que você sente quando começa a entender a essência das coisas. A paz de saber que tudo aquilo é belo e perfeito e não precisa de mais nada para melhorar. Que o brilho do sol e o cantar dos pássaros é uma melodia em perfeição, um espetáculo grandioso apresentado todos os dias para quem quiser ver.

O que pode ser triste, não para as coisas perfeitas que já são tudo aquilo que tem que ser. É triste para nós, tão perdidos em superficialidades dentro de nós mesmos que perdemos grandes coisas por pura distração. Não olhamos profundamente nem para dentro, nem para fora. Por estarmos ocupados com tolices. O sol não precisa de nós para nascer todos os dias, talvez por isso às vezes não damos a devida importância. Pois, tudo que parece importar são só as coisas feitas por nós ou para nós. Só importa se eu puder mudar e fazer do meio jeito.

Mas isso é algo tolo de se pensar, nós fazemos isso porque não entendemos. Não entendemos que as coisas podem ser livres e dessa forma são ainda mais belas. Não entendemos que a liberdade é a coisa mais bela possível de se ver e de se sentir. Bom mesmo é se ocupar sendo livre. De não tentar estragar as coisas perfeitas as mudando. Podemos apenas aproveitar a sua exuberância que é dada de graça, sem cobrar nada antes nem depois. As coisas perfeitas só tem coisas a oferecer e nada a tomar. Tomar talvez apenas o nosso fôlego, mas isso nós daríamos de bom grado.

– Genevieve V.

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