O Velho Corvo – Parte II

No dia seguinte acordei pensando no corvo. Será que ele estava por perto? Iria me visitar novamente?

Apesar de não saber quase nada sobre corvos tentei rastreá-lo, mas sem sucesso. Nas minhas caminhadas pela floresta todo barulho de asas e folhas se mexendo chamavam a minha atenção. Suponho que eu tinha a esperança de ver o corvo novamente, nem que fosse para rir de mim novamente. Mas ele não apareceu.

Na hora de dormir, não ousei dormir. Parecia bobo agora, além de que, por mais tolo que fosse, eu temia o julgamento do velho corvo. Talvez ele tivesse se espreitando nas sombras apenas esperando o primeiro chiado de choro para poder caçoar.

Os pensamentos ruins também não tinham mais o espaço todo para si. Eles tinham que dividir espaço com a crescente curiosidade que eu nutria pelo visitante das sombras. Era a única coisa que eu me preocupava naquele momento.

A minha curiosidade era tanta que eu até ousei pensar em ir em alguma biblioteca, ou falar com algum bruxo da floresta, um herbalista, talvez? Com certeza existe algum herbalista que explora a magia daquela floresta, sempre há.

Não. Abordar qualquer pessoa para perguntar sobre corvos seria muito suspeito. Me julgariam de bruxa ou louca, ou ambos. Talvez até alguém enviado pelo Império ou pela Igreja para caçar os praticantes de magias profanas. Não. Perguntar sobre corvos não era uma boa opção. De forma alguma.

Mas, talvez, será que valeria a pena? Eu arriscar minha vida por uma curiosidade tola? Ah, mas se eu fosse pega e queimada na fogueira o corvo ganharia. Seria mais um perdendo a vida diante de seus olhos cansados, mais uma pessoa morrendo por sua tolice. Eu não poderia dar esse gosto a ele.

Perdida na discussão comigo mesma, o sonho chegava lentamente. Ele pegava os pensamentos delicadamente, um a um, e colocava no reino dos sonhos, misturando o que era real e o que não era e me levando a adormecer aos poucos, caindo no sono sem perceber.

Ouvi meu choro. Eu estava me vendo chorando ali sozinha? Se eu não permiti chorar acordada choraria nos sonhos? Não. O corvo. O corvo!

Abri meus olhos e antes de me levantar energeticamente me lembrei que eu poderia assustar o animal selvagem novamente. Tentei me levantar delicadamente, para que ele pudesse acompanhar meus movimentos no escuro da caverna.

Apenas minhas respiração podia ser ouvida além do choro. Meu coração palpitava. Mas o corvo estava muito bem escondido nas sombras.

– Eu não choro mais. – falei ternamente, orgulhosa de mim mesma.

– Não mais, não mais, não mais. – ele respondeu e voou para mais perto, apesar de ainda não poder vê-lo.

– Muito obrigada. – agradeceu ela de maneira inocente.

– Obrigada. – o corvo respondeu e pousou em um galho de árvore que havia nascido ali dentro, há poucos metros da garota. Agora ele se fazia ser pela luz fraca da lua que entrava mais tímida do que nunca, iluminando as pedras e sendo refletida pelo pequeno riacho ao lado. Eu sorri.

O corvo olhava para mim como se me analisasse. Parecia que ele estava julgando se eu era merecedora de seu tempo ou não. Talvez ele tivesse aproveitando que a minha presença assustava alguns animais e me usava como um escudo e nada mais. E talvez, apenas talvez, ele estivesse tão curioso sobre mim do mesmo tanto que eu estava curiosa sobre ele.

– Está curioso, Sr. Corvo? – perguntei sorrindo.

– Curioso, curioso, curioso. – ele respondeu mexendo a cabeça de um lado para o outro.

– Eu também. – respondi, como se isso fizesse algum sentido.

Ele não respondeu, apenas deu pulinhos e mexeu a cabeça olhando para mim, fazendo com as falhas entre as suas velhas penas se deixassem ver.

– Você veio anunciar algo bom ou ruim? – perguntei, relembrando de minhas suspeitas na noite anterior.

– Bom ou ruim? Bom ou ruim? – ele respondeu. Bom, isso não ajudou a esclarecer muita coisa.

– Hm. O que é bom pra uns pode ser ruim para outros. De fato, sr. Corvo, de fato. A bondade e a maldade são relativas. – eu disse, falando ao mesmo tempo, comigo e com o corvo. – Eu estou em perigo? – perguntei, mas não recebi resposta. Talvez ele tivesse se cansado de conversar. Continuei sentada por um tempo, esperando alguma resposta, mas como não recebi resolvi me deitar. O cansaço do dia começou a ficar pesado.

Assim que me deitei ouvi o bater de asas do corvo, que voou do galho da árvore que ficava a minha esquerda até na falha de rochas em que eu descansava. Era quase que um esconderijo, que com peles e penas se fazia bem confortável e quente, além de ficar em um lugar mais elevado, assim era possível ver quase toda a abertura da caverna se eu me levantasse um pouco.

Ele pousou nas rochas ao lado da minha “cama”, que formavam quase que uma proteção natural, quase como uma parede feita de estalagmites e estalactites, com uma grande entrada vertical do lado direito, por onde o corvo entrou.

– Bem vindo ao meu covil. – falei rindo.

– Covil, covil, covil. – ele disse olhando ao redor, se familiarizando com meu pequeno esconderijo.

– Isso mesmo. Podemos chamar de Covil do Corvo se quiser, é menos perigoso que Covil da Bruxa. – expliquei para ele, mostrando que o nome ainda estava em aberto.

– Covil do Corvo, covil do corvo. – ele me disse. Estava resolvido.

– Covil do Corvo, então. Soa bem, sr. Corvo. – eu disse antes de adormecer.

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