O Velho Corvo – Parte I

Uma vez conheci um velho corvo. No dia em que ele me encontrou eu estava sozinha quando ouvi um choro baixinho. O mesmo choro que ecoava na caverna nas últimas noites, mas que viam de mim, sempre que me preparava para dormir, os pensamentos e memórias saiam em forma de lágrimas.

⁃ Diabinho. – disse ao avistar o brilho das asas negras. – Está caçoando de mim? – perguntou, ofendida por trás das pedras, curiosamente temendo assustar o visitante.

⁃ Diabo, diabo, diabo. – ele repetiu movendo a cabeça caçoando, pelo menos na visão da garota.

⁃ Seria você o diabo? – dizem que os corvos são a personificação do mal. Mas aquele corvo decrépito não parecia ser o mal puro. – Só está querendo dar uma risada? – perguntou soltando um riso tímido sem querer com a absurdidade de estar falando com um pássaro.

⁃ HA HA HA – respondeu o velho corvo parecendo gargalhar. A menina não pode conter o sorriso.

⁃ Então você acha isso tudo engraçado. – disse ela balançando a cabeça com o olhar distante. Talvez pra um corvo que já viveu e viu tanto seria de fato engraçado uma menina jovem e saudável tão triste e melancólica. Seriam seus problemas realmente tão pequenos que até mesmo um corvo pode ver?

⁃ Engraçado. – ele confirmou? Talvez. Era a primeira conversa que ela tinha em algum tempo, talvez tivesse se esquecido como conversar, talvez sentisse tanto a falta de um contato que até um corvo repetindo palavras parecia bom o suficiente.

– Você deve ter visto muito em sua vida, ha? – disse a garota mergulhando na loucura que havia se enfiado.

– Muito, muito, muito. – foi a resposta que ecoou na escuridão.

A garota teve o ímpeto de sair de trás da pedra, para poder olhar melhor para o corvo. Mas seus pés deslocaram uma pedra que caiu barulhenta, espantando o senhor corvo. Tudo que a menina pode ver foi o borrão escuro sumindo por entre as pedras.

– Olá? – perguntou ao eco e não obteve resposta. – Me desculpe. – disse com a voz mais leve. Mas o pássaro já havia partido.

Naquela noite ela não pode pensar em nenhuma outra coisa além do velho pássaro. Os corvos são sabidos, todo mundo sabe. Mas também são vistos como mau agouro. Estaria aquele corvo anunciado um perigo iminente? Ele veio anunciar o meu fim? Veio rir do humano que viveria menos do que ele? Quantas pessoas havia aquele corvo visto perecer? E ele continuando ali, acima de todas as tolices humanas. Talvez eu seja tola e ele sábio.

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