A escuridão era a mesma – Diário de Genevieve

“A escuridão é a mesma, mas você mudou de alguma forma. O nascer do sol é o mesmo, mas de alguma forma você está mudado.”

E escuridão era aquela que eu conhecia, já estive lá antes, algumas vezes, algumas por muito tempo, tanto tempo que me fez perguntar se lá era o meu lar. A escuridão era algo que eu conhecia muito bem. A falta de luz já não me surpreendia mais tanto quanto antes. Mas, minha reação com ela havia mudado. Não era o escuro, era eu. Eu mudei desde a última visita.

Eu sabia que a escuridão não havia mudado, ela é constante, implacável, inexorável. Mas meus olhos já não eram os mesmos que a encararam um dia. Desde então eu mudei. Mudei o jeito em que vejo as coisas. Inclusive a escuridão. Eu não a estranhava, ela era uma velha amiga, companheira de várias noites. Mas o modo com que eu a via havia mudado.

Eu a via agora como uma amiga, alguém que sempre esteve lá comigo. Ela não me assustava mais como antes. Antes ela me apavorava, tirava a minha paz, minha firmeza e o meu ar. Era algo que eu corria léguas e léguas para não ser alcançada. Era apavorante. Até que um dia ela me alcançou novamente. Mas dessa vez seu abraço foi mais longo e demorado, tão longo e demorado que foi, de algum jeito, reconfortante.

A escuridão me prendeu em seu palácio até que eu não quisesse mais sair. Lá não era assustador como eu havia pensado, era calmo e vazio, e escuro, e triste. Mas não ruim de uma forma que eu havia construído na minha mente. Comecei então a entendê-la. Meus olhos se adaptaram e a escuridão agora não mais me cegava.

Seus dedos longos e frios estavam sempre me envolvendo e eu estava bem em relação a isso. Nem me lembrava mais como era a sensação de antes. Era bom de algum jeito. Ela me ajudava a sentir menos as coisas e isso era tudo que eu queria no momento. Eu finalmente pude libertar o meu caos e ele preenchia o vazio e o escuro, preenchia tudo e também destruía, mas isso era permitido.

Após tirar tudo dentro de mim, de libertar o meu caos e ele se juntar com todas as outras coisas até se tornar algo a parte, eu fui embora. A escuridão me deixou ir sem resistência, éramos amigas agora. Abriu a porta da frente do seu palácio e me deixou seguir meu caminho sabendo que um dia eu voltaria por conta própria.

Quando saí, o nascer do sol era o mesmo, mas eu havia mudado de algum jeito, novamente. Eu já conhecia aquela luz da alvorada, já havia sentido aquele calor. Mas dessa vez foi diferente, como todas as outras. Eu sabia que passei de uma fase necessária. Eu sabia que o sol iria nascer novamente no outro dia, sem nenhuma sombra de dúvidas. E eu também sabia que mesmo que eu me perdesse no palácio da escuridão o sol estaria lá fora a minha espera.

A alvorada me abraçou também, aquele abraço caloroso que conhecemos muito bem. E eu soube que agora eu teria um novo desafio a frente. Sob a luz do sol, mas não menos importante ou assustador, apenas diferente. A luz iluminava dentro de mim e fazia eu sentir tudo de novo, todos os sentimentos que a escuridão havia levado. Foi bom sentir tudo de novo, como reencontrar um velho amigo.

Tudo era a mesma coisa, menos eu.

– Genevieve V.

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