A Sinfonia Expressionista de Nosferatu

Nosferatu, Eine Symphonie des Gravens (1922), no Brasil conhecido apenas como Nosferatu é uma das principais obras cinematográficas do Expressionismo Alemão, possui 5 atos e é um clássico do cinema. Traduzindo o título original o nome do filme seria algo como Nosferatu, Uma Sinfonia de Horror, isso porque o cinema da época ainda era mudo e os filmes eram acompanhados de uma sinfonia tocada ao vivo. Trinta anos depois de Pyotr Ilyich Tchaikovsky nos apresentar a Dança da Fada Açucarada, parte do bailado da Suite do grandioso O quebra-nozes, Hans Erdman escrevia a trilha sonora para o filme, contrastando intensamente com a melodia de conto de fadas, com uma percussão pesada para os momentos de tensão e o fortíssimo (o máximo de intensidade sonora que se pode obter sem danificar a voz/instrumento) acompanhando os horrores. Típico da música expressionista que em sua primeira fase se apoiava em harmonias cada vez mais cromáticas o que levantou à atonalidade, como a música dessa época que pode ser atonal, dodecafônica e/ou serial. É caracterizada por harmonias dissonantes, melodias frenéticas, desconjuntas, com grandes saltos, contrastes violentos e explosivos. Melodias ásperas, exageradas e soturnas, com uma distorção da música do romantismo como O quebra-nozes de Tchaikovsky.

É em um cenário de desesperança, fome, pobreza entre outras consequências de uma guerra que deixou a Alemanha completamente devastada que está o cinema expressionista nacional aelmão. O filme que inaugurou o movimento nas grandes telas foi O Gabinete do Doutor Caligari de 1920. Seus cenários, diferentes dos de Nosferatu, aos quais a maioria das cenas foram filmados em locações externas, eram distorcidos e geralmente feitos apenas com papel e madeira, com perspectivas absurdas e pouca profundidade com curvas muito abruptas, distanciando-se o máximo do real. Foi aceito pelo público em sua exibição e levanta uma grande questão: De quem é a culpa quando um cientista hipnotiza um paciente e o faz cometer um crime? Naturalmente, a resposta é que a culpa é do cientista. Ou seja, na época em que o Nazismo estava começando a nascer o Expressionismo apresentou no cinema uma obra que ia contra a autoridade, criticando-a. Mas no final, como se quisesse aliviar sua crítica, é revelado que o filme se passava na imaginação de um personagem que estava trancado em um sanatório, oferecendo assim uma mensagem extremamente conformista de que ele estava indo contra a autoridade apenas por estar louco. Mas é importante ressaltar que foram esses filmes que trouxeram os intelectuais para o cinema, que antes não tinha muita credibilidade ou apoio. E foram esses mesmos diretores que fizeram uma imigração em massa para os EUA alguns anos depois. Por isso a grande influência desses filmes na cultura pop atual, tanto no terror e nos monstros clássicos como na ficção-científica e fantasia.

Ou seja, na época em que o Nazismo estava começando a nascer o Expressionismo apresentou no cinema uma obra que ia contra a autoridade, criticando-a.

O cinema ainda era algo muito recente, a ponto de ainda não ser considerado nem mesmo uma arte própria, então, os expressionistas juntavam o teatro com a pintura em suas produções. Algumas características do mise-en-scène dos filmes dessa vanguarda são: os cenários pintados de uma forma que quisesse expressar as emoções em cena, a atuação teatral, mais exagerada assim como a maquiagem bem forte e marcante. A câmera era mais observadora, com pouquíssimo movimento, onde se completava uma sequência no mesmo plano, sem corte. Os ângulos eram extremos e havia uma atenção especial para a luz e sombra como nos feixes de luz e na acentuação dos contornos. Usava-se o espaço fora de tela para quem assiste usar a imaginação e completar a imagem. Era completamente não realista e não acreditava no conceito de beleza clássico. Exercia então a descaracterização de tudo que era “belo”.

Nosferatu começa com um letreiro, já mostrando uma característica do cinema expressionista que, quando usados, os letreiros eram sempre eram integrados visualmente com o filme, as cartas e bilhetes que eles recebem na narrativa, por exemplo, aparecem na tela como se tivessem sido escaneados dando a impressão de que quem assiste que os recebeu. Tudo isso faz parte do trabalho de imersão dessas obras. Esse primeiro letreiro definia Nosferatu como o mal absoluto, mas já vamos voltar nessa parte mais para frente quando formos tratar dos personagens. Logo depois é aberta a primeira cena onde podemos observar como sendo uma locação e não um cenário típico do cinema expressionista que traduzia os sentimentos da obra em todos os elementos do filme. 

O clássico Nosferatu nos apresenta uma narrativa dominada por caos e descontinuidade, elementos como o tempo não funcionam de um jeito cronológico e sim com saltos temporais e mudanças abruptas de cenário. Esse tipo de narrativa costuma deixar questionamentos propositais e as várias interpretações eram encorajadas pelos artistas, quem assiste é quem completa a história. Passando assim uma mensagem de que não existe uma verdade absoluta ou uma visão correta, o que molda nossa realidade são as nossas percepções. Como o Perspectivismo de Nietzsche que fala que a realidade é uma perspectiva humana do real, completamente interpretativa. Em Nosferatu nos é entregue a ideia de que o filme em si seria algo como o gato de Schrödinger, e que no lugar dos polos de vida e morte estariam todas as interpretações possíveis que tornam-se aparentes apenas com a distorção daquela realidade causada pela observação. (E quem nos observa para fazer da nossa realidade efetiva?)

Kasimir Edschmid, um autor expressionista, também diz que “A realidade é subjetiva e existe apenas em nós.” Ou seja, o expressionismo significa um subjetivismo levado ao extremo, a afirmação de um eu que forja o mundo a sua imagem e semelhança. Um grande anseio metafísico é criado. Em um artigo sobre a alma do expressionismo por Alfredo Rubinato é dito que o pensamento de Edschmid diz basicamente que “É o artista que, trespassando-os, se apodera da forma real que há por trás deles, e permite o conhecimento de sua essência verdadeira. O artista expressionista procura, em lugar de um efeito passageiro, o significado eterno dos fatos e objetos. Devemos – dizem os expressionistas -, nos desligar da natureza e tentar resgatar a ‘expressão mais expressiva de um objeto’, pois somente assim sua aura visível pode ser atravessada.”

O artista expressionista procura, em lugar de um efeito passageiro, o significado eterno dos fatos e objetos.

Kasimir Edschmid

É como se um artista expressionista fosse um estudante da Universidade do mundo de A Crônica do Matador de Rei, matriculado na matéria do professor Elodin, o Nomeador-Mor, para aprender o nome das coisas, onde é explicado que “Os nomes são a forma do mundo, e o homem capaz de falá-los está a caminho do poder. Há em cada um de nós uma mente que usamos para todos os nossos atos de vigília. Mas há também uma outra, que está adormecida. A sua mente adormecida é ampla e não cultivada o bastante para conter os nomes das coisas. Sei disso porque, vez por outra, esse conhecimento borbulha na superfície. Ensinar alguém a ser nomeador é como ensiná-lo a se apaixonar.” Um Nomeador nada mais é, nesse universo, do que uma  pessoa com a habilidade de saber o nome verdadeiro das coisas e esse nome seria descoberto ao entender toda a essência do que faz daquela coisa ela mesma, podendo assim exercer poder total sobre ela. Mas é também uma questão contraditória, causando angústia em alguns personagens como a Auri que se questiona: até onde é ético controlar as coisas em minha volta? Onde é o limite ao fazer o mundo se curvar as minhas vontades? Ele existe ou eu que tenho que delimitá-lo?

 As primeiras cenas, logo depois da mensagem inicial, mostram um casal apaixonado, Hutter e Ellen. Ellen começa o filme brincando com o gato, e ao receber flores a sua reação é questionar “porque as matou… flores tão bonitas…!?”. Ela é a personificação do arquétipo da mãe, da donzela inocente, da esperança e do cuidado para com a vida. Contrastando diretamente com Nosferatu, a personificação do mal, da morte, que age apenas durante a noite, pelas sombras. Ellen chama a sua atenção, naturalmente. Podemos ver aqui uma alegoria a guerra, que quer dominar e em consequência destruir, onde os fins justificariam os meios assim como na interpretação de senso comum do pensamento de Maquiavel. Nosferatu é um vampiro, tema comum da época onde as obras eram completamente sombrias, com monstros e aberrações, enfatizando as questões psicológicas e sociais dos indivíduos. Era muito forte a presença de personagens autoritários, ambíguos e de monstros que demonstravam a liberdade instintiva. A mais pura tradução de um povo desiludido e dominado por personagens históricos autoritários e seus regimes intragáveis e extremamente hostis para com quem se pensava diferente.

Ainda falando sobre personagens, um teórico do cinema Siegfried Kracaver diz que a alma está dividida em duas: a rebelião e a submissão. A rebelião seria o que o indivíduo quer realmente fazer, os seus instintos, a suaa liberdade, contra a submissão que seria o que geralmente o indivíduo realmente faz ou tem que fazer, a obrigação de cumprir o papel social. Ambos os fatores e seus resultados seriam causados pelo medo da tirania e do caos. Os instintos de liberdade seriam sufocados, na maioria das vezes, por um instinto muito maior, o do medo. E o medo, em Nosferatu, é personificado diretamente na figura do vampiro.

Desde Viagem a Lua de 1902 dirigido pelo grande mestre Georges Meliès, que sabemos que o cinema pode trazer o fantástico. E grande parte do fantástico moderno foi tirado diretamente da fonte do Romantismo, mais especificamente das Penny Dreadfuls inglesas, mais conhecidas no Brasil como Literatura Gótica. E algumas das maiores obras desse tipo de literatura veio graças a um vulcão na Indonésia. Isso mesmo, um vulcão, na atual Indonésia entrou em uma erupção sem precedentes fazendo com que a luz solar fosse bloqueada por conta da poeira, deixando a Europa de 1816 sem verão. Então quatro amigos foram passar o “verão” juntos, reclusos em uma casa de veraneio. Esses quatro amigos nada mais eram do que Mary Shelley, Percy Shelley, Lorde Byron e John Polidori. Eles fizeram uma aposta de quem escreveria o melhor romance de terror durante esses três meses e assim nasceram The Vampyre de John Polidori, o primeiro conto a citar um vampiro, e Frankenstein ou o Moderno Prometeu por Mary Shelly, a primeiro obra de ficção-científica da história. Podemos ver muitos desses monstros góticos nos filmes das décadas de 1910-20, como o próprio Frankestein (1919); The Werewolf (1913) e Ein Sellsamer Fall [O Médico e o Monstro] (1914), The Man Who Laughs (1928), o próprio Nosferatu (1922) entre tantos outros.

E algumas das maiores obras desse tipo de literatura veio graças a um vulcão na Indonésia. Isso mesmo, um vulcão, na atual Indonésia entrou em uma erupção sem precedentes fazendo com que a luz solar fosse bloqueada por conta da poeira, deixando a Europa de 1816 sem verão.

Hutter, logo depois de se despedir da esposa encontra com um conhecido da rua e lhe é dito que “No one can outrun their fate.” uma frase que implica o pensamento determinista. Todos nós teríamos destinos que nos alcançariam, independentemente dos nossos atos, o que é para acontecer, vai acontecer. O que já não era mais tanto um pensamento expressado na época, o filme vem com uma mensagem mais pessimista, de que na verdade, o destino não existiria e os responsáveis por nossas ações seriam nós mesmos.

Hutter logo descobre que precisa partir para vender uma mansão na sua pequena cidade, Wisborg, para um tal de Conde Orlok da Transilvânia. Ele então parte e nos permite estabelecer uma alegoria a Primeira Grande Guerra: o homem ambicioso, movido por sua ganância vai para longe de casa buscar algo que não lhe pertence e depois é punido severamente por isso. Hutter pode ser visto como a personificação do homem moderno, ele é ambicioso e cético, achando graça das crenças populares. Ele também é ansioso para acumular capital e tem um sentimento ambíguo ante o desconhecido, às vezes acha graça, em outras o teme intensamente. O filme se ambienta em uma Alemanha ainda semi-feudal nas áreas rurais, onde as pessoas ainda tinham uma relação muito grande com os mitos e lendas. Eles temiam sair a noite, por exemplo, por a noite ainda era diretamente relacionada com o desconhecido e com perigo. O medo do desconhecido que provém da sabedoria popular, da superioridade da natureza perante o homem. Isso se dá na Alemanha, o berço de grande parte dos contos de fadas conhecidos atualmente e transcritos pelos Irmãos Grimm. Era ainda uma sociedade que possuía a base de suas crenças em folclores e não na ciência.

Uma das principais críticas do filme seria a essa Alemanha atrasada e ainda semi-feudal. Enquanto um dos maiores medos da Inglaterra de Bram Stoker e de Mary Shelly era o avanço da ciência e tecnologia, trazendo eletricidade as cidades e a revolução industrial. Bram Stoker em seu romance Drácula (1897) consegue mostrar o contraste da civilização da luz, a romantizada Belle Époque (1871-1914), com a escuridão sendo implantada no romance de formas literais e alegóricas. Lá, no escuro, ainda se mantém o espaço de barbárie. A vinda da eletricidade beneficiava apenas a alta sociedade enquanto a população comum ainda sofria por direitos básicos. E ainda havia a ilusão de que com a eletricidade e os avanços da ciência iria se firmar uma civilidade na população, o que obviamente não ocorreu. A Era Vitoriana havia acabado de passar deixando um longo rastro sombrio para trás. E episódios como o do famoso Jack, o Estripador serviam para lembrar que no escuro ainda havia muito a que se temer. E que a esperança de um futuro melhor graças às máquinas era uma grande ilusão.

Em tempos como aquele, de mudança, incerteza e medo, além do avanço da ciência no mundo e a sua enraização no senso comum, a existência de Deus é contestável. Trazendo novamente os mistérios de vida e morte à tona. A figura de Deus é ofuscada por outras figuras mais sombrias como a morte e a fome para certa parte da população, já para outros era a ciência que invalidava essa existência. Mas a questão é, com um Deus tão distante e um Caos tão próximo às discussões sobre vida e morte voltaram ao cenário. Figuras macabras e pessimistas tomam o protagonismo e levantam questões sobre o comportamento humano trazendo muito a figura da morte, tão presente em suas realidades. Questões, por exemplo, do âmbito de quem que traria o mal? O que gera medo? O que nos une? O que nos afasta? Quanto se vale uma vida? Há esperança?

Voltando ao filme podemos observar a melancolia do preto e do branco na tela, bem contrastante fazendo com que a maquiagem dos personagens, bem marcada, fique ainda mais aparente. Como a loucura de Knock, chefe de Hutter, ao falar com o funcionário sobre o Conde Orlok (Nosferatu). Cenas em negativo e a aceleração frenética de personagens em certos momentos como na ida de Hutter até a mansão de Nosferatu, já se faz sentir certa aflição ao assistir a película desfazendo a nossa percepção de tempo e continuidade. No decorrer da narrativa podemos ver também ângulos de câmera desconcertantes e uma sensação de ameaça constante. Hutter chega na mansão do Conde Orlok e começa a acreditar no vampiro apenas depois de ver por conta própria, apesar de ter sido avisado várias vezes pelos aldeões. Ele é atacado por Nosferatu e Ellen, sua esposa, pode sentir. A partir de então ela começa a ter distúrbios do sono, como ataques de sonambulismo. Aqui entramos em outro contraste do filme, a realidade e o sonho. Assim como em O Gabinete do Doutor Caligari, o recurso do imaginário é usado mais uma vez. Os sonhos de Ellen são uma forma de semi-entender o mal e um jeito de ter certeza de algo naquela realidade, por mais absurdo que isso pareça. Apenas o imaginário, o sonho e o fantástico faz possível a compreensão de um mundo que se mostra tão irreal e cruel. O que mais poderia trazer o mal absoluto senão um monstro de um lugar distante? Era muito mais fácil acreditar nisso do que acreditar que o que traz o mal, o caos, a praga, a fome e a morte são nossos iguais. O realismo, nesse momento, já é algo intolerável.

Mas já é tarde demais para Hutter, o Conde Orlok já partiu para Wisborg atrás de Ellen, pelo qual se apaixonou depois de ver uma foto dela que Hutter trazia consigo. Conde Orlok, ou Nosferatu, traz para a cidade seus caixões cheios de terra (a terra onde ele foi enterrado, pois de acordo com as lendas a sombra de um vampiro poderia ir apenas até onde as terras amaldiçoadas de onde ele foi enterrado estivessem) dentro deles também estavam ratos e a praga, que assola a cidade e mata muitas pessoas rapidamente. Esse é o nosso vilão, o vampiro, o estrangeiro, aquilo que é quase humano, mas não chega a ser por completo. É o que Arendt chama de banalização do mal. Nosferatu é um vampiro, e mata várias pessoas para beber o seu sangue porque ele é um vampiro e é isso que vampiros fazem. Ele age segundo o que acredita ser o seu dever, cumpre as próprias ordens instintivas sem questioná-las, sem refletir sobre o Bem e o Mal que podem causar. Nosferatu é a imagem e a essência do Mal. Como é incitado na frase de abertura do filme: “Nosferatu. Does this word not sound like the deathbird calling your name at midnight?”

Fonte: Getty Images

Agora vamos analisar como a figura do Nosferatu causa medo no filme. Vou usar de uma citação que René Magritte usou para falar sobre a sua pintura O Filho do Homem, “Há um interesse naquilo que está escondido e no que o visível não nos mostra. Esse interesse pode tomar a forma de um sentimento relativamente intenso, um tipo de conflito, pode-se dizer, entre o visível que está escondido e o visível que está presente.” Ele fala basicamente da nossa curiosidade e como ela inevitavelmente gera imaginação em coisas incompletas ou escondidas. Estamos sempre tentando preencher o vazio de significação das coisas. Essa é uma característica da literatura clássica de terror imortalizado por H. P. Lovecraft, que inaugurou o terror cósmico. Esse é um termo usado para descrever o medo, aflição e terror causado ao percebermos que a existência da humanidade é insignificante perante todo o universo. Lovecraft também trabalha com a ocultação intencional dos seus monstros, porque tememos muito mais o que não podemos ver, definir ou entender. A verdadeira natureza do mal nunca é entendida ou revelada, o medo é do desconhecido, do que não podemos controlar. 

Por isso que as sombras do filme são tão expressivas. Como na cena em que Nosferatu parte para atacar Ellen e apenas a sua sombra pode ser vista subindo a escada, uma das cenas mais icônicas do filme. E ao se aproximar dela apenas as sombras de suas mãos são visíveis. Por um momento ele nunca chega a tocá-la, mas só a antecipação de que isso vai acontecer já causa uma agonia desconcertante a quem assiste. A sombra é a representação do desconhecido, do impalpável, daquilo que se está presente, porém ainda é muito abstrato para se manusear, o medo em si. Para entendermos mais a significação da sombra temos que voltar a Lovecraft e entender um termo chamado Uncanny Valley, ou vale da estranheza, que é basicamente um termo que define que formas humanas se comportando de forma parecida com a de um humano, mas não de maneira idêntica, podem causar extrema repulsa e desconforto aos humanos. Masahiro Mori, professor de robótica e criador da expressão, diz que quanto mais um robô se parece com um ser humano vai se ganhando mais empatia e aceitação de outros humanos até dado ponto onde a resposta vira rapidamente para uma forte repulsa. Podemos relacionar essa rejeição do que nos é muito familiar porém ainda diferente porque isso remeteria diretamente a nossa sombra. Seria uma parte de nós que tentamos ignorar, apesar de saber da sua existência. A sombra, na teoria de Carl Jung,  seria a parte do inconsciente que o ego consciente rejeita. E quanto mais se nega conscientemente que ela existe, mais forte ela fica. Seria um lado obscuro que todos nós temos e costumamos reprimir. A sombra seria os perigos desconhecidos, tanto externos quanto internos.

A nossa verdadeira evolução e o autoconhecimento viriam ao enfrentarmos essa sombra, a parte reprimida da personalidade que luta cada vez mais forte para dominar o mundo real, a mente consciente.

É como Elodin explica em O Temor do Sábio, a mente adormecida é a nossa sombra, e a mente desperta é o ego consciente. Para alcançar o nome das coisas, a essência real ou o significado eterno tão procurado pelos expressionistas, precisamos ter contato com a sombra, é preciso entrar na mente adormecida e explorá-la. A nossa verdadeira evolução e o autoconhecimento viriam ao enfrentarmos essa sombra, a parte reprimida da personalidade que luta cada vez mais forte para dominar o mundo real, a mente consciente. A sombra não carregaria todos os males do mundo como a caixa de Pandora, reprimimos ela por saber que entendê-la e aceitá-la é um processo doloroso e complexo, que nunca, de fato, terminaria e que nos traz muita angústia e apreensão pelo medo do que vamos descobrir. Tememos enfrentar o verdadeiro eu, não queremos sair da zona de conforto. Assim como o pássaro de Hermann Hesse antes de quebrar o ovo. Para que tentar entender algo que sabemos que nunca realmente iremos poder compreendê-lo por completo? Esses eram os sentimentos da Alemanha pós Primeira Guerra, o medo explicitado tanto de coisas exteriores, mas principalmente das batalhas pessoais de um povo em estado de total desumanização. Questionamentos internos sobre ética, moral, costumes, religião e política despedaçavam esses indivíduos. As pessoas sabiam que não podiam controlar as guerras e tudo que ela havia trazido e ainda iria trazer para o país, mas a impotência de não poder controlar até mesmo os próprios atos já soava como demais. 

Fonte: paranoiaborealis

Tudo isso montava um cenário de pura angústia, tanto pessoal quanto coletiva, expressado muito bem por Edvard Munch em O Grito (1893). Na pintura podemos sentir toda essa inquietação, ansiedade e pânico para com o futuro. Em uma carta em que fala sobre sua famosa obra e o momento que a originou é dito “Eu caminhava com dois amigos – o sol se pôs, o céu tornou-se vermelho-sangue – eu ressenti como que um sopro de melancolia. Parei, apoiei-me no muro, mortalmente fatigado; sobre a cidade e do fiorde, de um azul quase negro, planavam nuvens de sangue e línguas de fogo: meus amigos continuaram seu caminho, eu fiquei no mesmo lugar, tremendo de angústia. Parecia-me escutar o grito imenso, infinito, da natureza.” Em The Scream & The Great Gig In The Sky dirigido por Sebastian Cosor podemos ver um curta com a imagem de O Grito ao som de The Great Gig In The Sky da banda Pink Floyd. A letra fala basicamente de um homem que diz não temer a morte, porque ela iria em algum momento alcançar todos. A temática é abordada sem qualquer compassividade como no ditado Valar Morghulis proveniente do universo fantástico de As Crônicas de Gelo e Fogo, que significa “todos os homens devem morrer”, é uma obrigação humana. A letra da música, não por acaso, é tirada do álbum The Dark Side of The Moon, um álbum conceitual da banda que foca na temática existencialista. Sartre fala em O Existencialismo é um Humanismo que “a existência precede a essência”, ou seja, a única essência que o ser humano possui é aquela que ele cria depois de sua existência. É a certeza da incerteza que deixa o ser humano tão angustiado, agoniado e ansioso. Ainda mais com uma perspectiva de um futuro tão pessimista e vazio. O curta demonstra a conformidade de um homem que sabe que o grito imenso e infinito da natureza um dia vai alcançá-lo e que de nada adianta lutar contra. Como os aldeões, que Hutter encontra e subestima, eles sempre souberam da superioridade da natureza perante o homem e tentaram avisá-lo. O próprio Munch seria o homem moderno que volta a entender esse saber ancestral.

Em A Metamorfose, de Kafka, publicado em 1915, existem três fases para com que a família age perante Gregor. É da mesma forma que Nosferatu é tratado no filme e como costumamos tratar ameaças externas. Primeiro é o medo, a família tem medo de Gregor, os personagens temem Nosferatu e os indivíduos temem o governo, por exemplo. Depois existe uma semi-aceitação, não há mais luta ou resistência, tudo que sobra é o desconforto e o sentimento de desamparo, a família aceita Gregor mas o esconde, Hutter e Ellen não fazem nada em relação a Nosferatu e a praga apesar do vampiro ser vizinho deles e o indivíduo aceita o regime em que está vivendo. E por último o ódio, a família sente ódio de Gregor e querem se ver livres dele, Ellen decide enfrentar Nosferatu e o indivíduo se levanta contra o governo. Novamente resgatando o espírito de ir contra a autoridade que O Gabinete do Doutor Caligari tentou implantar.

Mas antes de chegarmos ao ato final, precisamos analisar o papel de Knock no filme. O personagem é o único apoiador de Nosferatu e já está preso em torno do Ato III por conta de sua insanidade. Como se a loucura fosse a única justificativa para alguém ser capaz de apoiar o mal absoluto, apenas a insanidade permitiria que isso acontecesse. Ele consegue fugir no Ato V e é culpado pela cidade por trazer a epidemia, afirmam que Knock é um vampiro. Assim a população da pequena Wisborg finalmente acha a culpa do mal. A culpa do mal sempre é uma ameaça externa, está sempre no outro, e é causada pelo poder coletivo de se juntar e culpar uma ameaça maior. É o coletivo agindo pela sobrevivência do grupo, um comportamento completamente extintivo da nossa espécie observado desde os homens neandertais. Isso gera um sentimento de controle da situação. Ou seja, o vampiro da história que é o culpado de todos os males. Faz todo sentido, ele é uma ameaça exterior vindo de uma terra citada no filme como “[…] far, far away, to the land of thieves and phantoms.”. Além disso, um vampiro é uma ameaça tangível a ponto de ser destruída. É algo relativamente fácil e possível de ser combatido em comparação aos problemas reais como a guerra  e a miséria. 

Então Ellen, a mãe-terra, a vida e a esperança, decide destruir o mal. Ela lê no livro amaldiçoado, que seu marido Hutter encontrou durante a viagem, que apenas uma donzela inocente poderia enganar o vampiro o fazendo ficar depois do primeiro canto do galo. Assim a nossa mocinha atrai o mal de todos os males para sua casa o permitindo sugar seu sangue no último momento da noite e depois de passado o primeiro canto do galo a luz do sol destrói Nosferatu. Uma vida inocente salvou a população da cidade, mas teve que se sacrificar. Além da simbologia da luz que extingue a escuridão. O que seria mais forte do que a luz do sol para extinguir as longas e densas sombras de Nosferatu?

Artista: EyeOfSemicolon

O fim de Nosferatu também é agridoce e ambíguo assim como O Gabinete do Doutor Caligari ele passa uma mensagem mais leve no fim. O mal é derrotado, mas o bem tem que ir junto. Isso me faz lembrar no mito de Pandora, que abriu a caixa e libertou todos os males do mundo, só que Atena havia colocado lá dentro a Esperança. Em Humano Demasiado Humano (1878), de Nietzsche discute a ideia de que “a esperança seria uma forma de evitar o suicídio diante de um mundo corrompido, uma esperança falsa, que basicamente só prolonga o sofrimento humano.” Ou seja, somos deixados com uma esperança no final que sabemos que vai nos levar a apenas mais sofrimento. Alguns anos depois o Nazismo iria ganhar força e em 1939 a Segunda Guerra Mundial iria assolar o planeta novamente, foi para isso que serviu a esperança deixada para trás. Assim como em Mother (2017), onde a Mãe se sacrifica para destruir o mal, mas em vão, já que tudo é um ciclo e o Criador vai repetir tudo novamente em sua nova criação já fadada ao fracasso.

Mas talvez seja melhor finalizar com a ideia do escritor expressionista Ernst Bloch, que desenvolveu a chamada Utopia Concreta, que distancia-se do puro sonho tanto quanto do banimento de todas as esperanças. Em Espírito da Utopia de 1918 é dito que o mundo existente é o mundo passado, porém o anseio humano, em ambas suas formas – como inquietude e como sonho acordado – é a vela que leva ao outro mundo. O mundo existente, o de Nosferatu, da praga e da morte iminente agora já foi passado, Ellen foi a vela para o mundo novo, para esperança e para o recomeçar. No fim, ela cumpriu seu papel e permitiu que a vida se sobressaísse, mesmo sabendo que precisaria abrir mão da sua. Ela morreu para que um novo mundo pudesse nascer. Como diz Hermann Hesse, escritor e pintor Alemão, ganhador do Nobel de Literatura, em sua obra Demian de 1919: “A ave sai do ovo. O ovo é o mundo. Quem quiser nascer precisa destruir o mundo.”

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